quinta-feira, 3 de março de 2016

Eu queria ter na vida...




O primeiro "brinquedo" do Miguel foi um microfone. Ele ainda mamava no peito quando fazia de qualquer objeto que tocasse um microfone imaginário. Com 2 anos de idade quando saiu da primeira creche que "estudou", ganhou uma carta escrita a mão, com declarações apaixonadas das monitoras. Todas elas diziam: "O que vai ser de nós sem a sua cantoria logo cedo?".
Depois, ganhou seu primeiro microfone de verdade e eu tenho registro de incontáveis apresentações musicais que ele fez em nossa casa. De Chico Buarque, passando por Ellen Oléria até chegar no LepoLepo e Valeska Popuzuda.
Miguel canta.
Seu segundo "brinquedo" preferido é claro, uma caneta. Acho que a bronca que mais repito por dia é : "Miguel, tira essa caneta da boca" e "Você pode se machucar com essa caneta o tempo todo na mão".
Papel em branco é sua maior tara. Também gosta de pinturas no rosto, chapéus e capas, que ele mesmo improvisa com toalhas ou fronhas. Não é raro sair na rua assim. Ou com asas, luvas, máscaras.
Um dia acordei e ele, que já havia levantado mais cedo, estava com os olhos pintados de canetinha e a boca borrada com algum batom meu.
Perguntei o que era aquilo e ele respondeu : "Mãe, é que eu tô treinando pra ser palhaço".
Nesse ano, no primeiro carnaval que pulamos juntos/aproveitamos de fato, com direito a fantasias e tudo mais, ele falou: "Mãe, por que a gente não pode viver fantasiado todos os outros dias do ano né?" (Eu não soube o que responder porque eu também queria que essa fantasia fosse eterna, risos).
Miguel é teatral. É dramático. É poético. É literário. É arte pura.
Chora ouvindo Pitty, pede pra parar o carro pra observar a lua, e me pede também pra fazer versinhos de poesia.
Imita risadas de bruxa e em geral está carregando por aí uma bola de cristal ou algum outro apetrecho estranho.
A primeira frase que escreveu foi "eu te amo", ele envia cartões postais e chora de saudade dos lugares que já moramos.

Miguel vive num mundo paralelo, um mundo dele, que aos 6 anos, ainda parece um reino da fantasia (embora agora ele esteja começando a deixar de ter medo de monstros pra ter de "bandido" 
Emoticon unsure
 ) .
Eu cuido pra deixar ele ser o que ele quiser ser e acreditar que pode ser o que quiser. E ele diz que quer ser cantor-ator de novela- fotografo-desenhista-e consultor da Jequiti (tô falando sério).
Eu viveria num mundo desenhado por Miguel. Sei que nele ninguém morreria de tédio, nem de fome, nem de tiro, nem de falta de abraços.
Tenho uma baita sorte de conviver e ser amada por esse moleque.
Há 6 anos eu botava ele no mundo e esse mundo, esse mundão véi e real (que devia me agradecer por isso) é muito é do pequeno perto da giganteza do mundo desse menino.
Miguel é um Universo. Que hoje dá mais uma volta cantando, dançando e interpretando, em volta do sol.

Feliz mais um ano, filho amado! (E que você tenha esse lugar de mato verde, já que a casinha branca de varanda para ver o sol nascer a gente já tem) 

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Amamentação: precisamos falar sobre empatia e maternidade cor de rosa





 Fernanda Gentil, desculpa pelos julgamentos e falta de empatia no mundo 

Sobre essa polêmica aí com a Fernanda Gentil (a jornalista da globo que postou um desabafo sobre amamentação):

Li o depoimento dela e achei tocante, verdadeiro, amoroso e corajoso. Sabemos o que é postar opinião numa rede social hoje em dia, ainda mais sobre maternidade, ainda mais sendo uma pessoa pública.

Li também inúmeras críticas dizendo que ela fez um desserviço às mulheres, que o Brasil tem lactação exclusiva de apenas 54 dias e que postar uma foto daquela era um incentivo à introdução de fórmulas, etc.

Li ainda os comentários das postagens. Alguns, muitos, de outras mulheres AGRADECENDO a ela por dizer aquilo. Que se sentiam culpadas por não ter conseguido amamentar, que se sentiam inferiores, que ler o relato foi libertador.

Imagina ser bombardeada desde que nasce sobre o quão mágico é ser mãe. Que maternidade é dom inato, que é fácil, que é destino obrigatório. Pensem nas propagandas e comerciais, onde a mãe é aquele ser angelical. Pense nos cartazes de amamentação, onde um bebê suga facilmente um seio lindo e essa mãe sorri apaixonada. Parece fácil. Parece mágico. Parece que nascemos pra fazer aquilo.


(Alô Wanessa minha filha, tira essa roupa bege, solta esse cabelo de virgem Maria e vem pro nosso lado da maternidade de verdade. Fica a dica pro Ministério da Saúde: mães para além dos tons pastéis)


Agora imagina que na hora que você recebe nas mãos aquele pacotinho definitivo chamado “filho” (e dá aquela sensação de pânico, admitam), tu coloca ele no teu seio (grande, mudado, com mamilos de outra cor. Às vezes rachados ou doloridos) e fuen fuen fuen, não rola. 

Não é um lego. Não é encaixe automático. 

A criança (muitas vezes) não sabe. A mãe também não. Como assim? Não é algo instintivo, natural, espiritual? Não, não é. Assim como parir e maternar esse ser para o resto da vida também não.

Imagino a frustração dessa mulher. A dor. A culpa. A sensação de fracasso.

Aqui Miguel nasceu sem saber mamar. Eu tinha leite que jorrava, mas fui orientada ainda no hospital a dar leite em pó no copinho. Foram três dias horríveis. Meu peito empedrando (tive febres e delírios mó onda).

De três em três horas lá estava eu com o copinho. Era uma sujeira, um trabalho e uma impotência imensa.

Tudo mudou quando procuramos um banco de leite. Com muita disposição, esforço e perseverança saí de lá amamentando meu filho. A primeira mamada dele durou umas 2 horas, sério. Aí sim foi lindo (pra mim).

Ele mamou até os dois anos (pra quem não sabia mamar néééé?). Uma experiência incrível. Tenho muita saudade de amamentar.

Recebi felicitações por tê-lo amamentado exclusivamente até os 6 meses e me questionei o porque. Já enxergava a amamentação com outros olhos. Era minha obrigação enquanto mãe. Amamentar não é um ato de amor. Amamentar é oferecer o melhor alimento para seu filho. Um alimento nutritivo e poderoso, mas um alimento. Não tem a ver com sentimento.

Uma mãe adotiva por acaso não ama seu filho? O pai? Alguma que decida ou não possa amamentar? E as mães que precisam desmamar seus filhos para voltar ao trabalho?

Precisamos desassociar amamentação de ato de amor. 

Primeiro porque aí geramos um batalhão de mulheres que acham que amamentar é simples e automático (e não, não é. Precisa de informação, suporte e esforço, além do desejo, é claro) e depois há aquelas que se sentirão um tanto mais fracassadas e culpadas por não terem conseguido amamentar, como se amassem menos por isso.

Vamos conversar sobre essa maternidade cor de rosa que nos pintam. Vamos nos livrar aos poucos de um peso milenar em nossas costas. E não é um vida sem culpa que busco, é uma maternidade real, para ser consciente e inteira.

É por isso que fiz esse post, pra dizer que amamentar não é amar. Amar é um sentimento. Amamentar é só alimentar. Vínculos se constroem de várias formas e eu concordo com a Fernanda Gentil: segurando uma mamadeira também é possível olhar nos olhos.

Não estou fazendo apologia ao não-aleitamento materno. Aqui mesmo já me dediquei a escrever diversas vezes sobre os benefícios da amamentação, também já mostrei o quanto foi uma experiência maravilhosa pra mim e que dedico parte da minha vida em militar nessa coisa de maternidade ativa. Mas se queremos mesmo empoderar mulheres precisamos sair dessa redoma sentimental/biológica e ir para o lado da informação, da busca por uma rede de apoio, da critica ao sistema que nega direitos, do sistema de saúde que incentiva o oposto do que acreditamos. Aí sim. Mulheres informadas jamais serão lesadas. 

(E ainda queria falar sobre as mulheres informadas, mas que simplesmente DECIDIRAM não parir, não amamentar ou não fazer qualquer coisa que a sociedade espera de uma dita boa mãe. Essas precisam do nosso respeito e não do nosso julgamento)

Mas enfim, precisamos sobretudo de mais empatia. E-M-P-A-T-I-A. Fale comigo. A capacidade de se colocar na situação do outro. 

A moça, a Gentil, não conseguiu amamentar. Pode ter sido mal amparada? Sim. Estava mal informada? Com certeza. Leite seca? Não (casos raríssimos). Talvez poderia ter escrito um depoimento “eu não consegui, mas tente você assim ou assado”? Sim. Mas julgá-la ou falar em desserviço chega a ser cruel.

Do que adianta sermos ativistas em prol da amamentação, do parto, da ocitocina se quando uma de nós compartilha uma experiência dolorosa nos voltamos contra ela? Parece as pessoas que são a favor da vida, mas só se essa vida for a do embrião, a das mulheres não.

Eu queria deixar um abraço pra Fernanda, pra Flávia (minha amiga) e pra todas as mulheres que não conseguiram amamentar. Quero me juntar a elas e lutar conjuntamente contra esse índice absurdamente baixo de aleitamento materno no Brasil. Com certeza tem algo de errado com o sistema, com elas não. Elas merecem nossos ouvidos, nosso colo, nosso apoio.

Vamos acabar de vez com essa falta de solidariedade feminina. E também com a romantização da maternidade.

Seguimos aí na vida real. Com nossos peitos ou nossas mamadeiras. 

Em tempo: Falei de amamentação  Aqui,   Aqui , Aqui , Aqui e Aqui

segunda-feira, 11 de maio de 2015

O que dia das mães significa pra mim - ou Não me violente com seus esteriótipos


Ontem passei o dia das mães longe do meu filho. E da minha mãe. Fui pra uma cachoeira e fiquei meio que offline para essa data. Apenas uma data (criada pelo capitalismo para o consumismo e insira aqui esse clichê esquerdóide, porém verdadeiro), mas uma data que é impossível não ficar mexida com ela. Afinal, mãe é mãe. Dizem. 

Quero falar disso. 



Quando voltei, à noitinha, vi as redes sociais inundadas de fotos lindas e carinhosas, declarações e relatos sobre mães, maternidade, experiências, os clichês de sempre, tal, e aí quis escrever sobre isso. 



Sobre ser mãe, sobre ser filha, sobre esse dia.



A primeira coisa que me assustou foi a reação das pessoas quando eu falei que não ia passar o domingo com meu filho. Nem com a minha mãe. Parece que tinha ofendido gravemente os valores da família tradicional brasileira. Bom, ontem especificamente, Miguel estava no final de semana com o pai, a madrinha dele viria de outra cidade pra vê-lo, eu já havia programado esse passeio roots e não vi necessidade de ir buscá-lo só para reforçar uma data que homenageia a mãe e como no caso a mãe sou eu e eu não me importo, achei super ok. Ele tem 5 anos, certamente não tinha comprado presente, não tinha reservado restaurante, não ia sentir falta de passar esse dia comigo, simplesmente "porque é dia das mães" (é o que espero ao menos, só falta virar emo depois por causa disso). 


- Pausa - Nessa semana as tarefas da escola foram todas nesse tema e a gente já tinha curtido um tanto. Teve uma que eram perguntas sobre a mãe. "Qual a comida preferida da sua?" ele respondeu "Leite com nescau".  


Cara, isso encheu meu coração de ternura. Só quem me conhece muito bem responderia com exatidão que não vivo sem meu leitinho e que esse leitinho com nescau é a melhor comida do mundo pra mim (sou adulta, sou requintada, sou sim. risos). Meu filho me conhece.  – Despausa.

Enfim, não caguei regra, não tô fazendo isso agora, mas cara, eu tenho a oportunidade de criar meu filho da maneira que acredito e não acredito muito nessas datas comerciais (Também não dou ovo de páscoa, presente de Natal, nem nada no dia das Crianças - me julguem) e a gente leva isso, desde que ele nasceu, com muita tranquilidade, sem extremismos, quando dá, dá, mas não fazemos dessas datas momentos importantes pra nós. Não as reafirmo, não repasso pra ele, não dou importância. 

Pra minha mãe eu sempre dou presente (ó as contradições), simplesmente porque ela adora ser presenteada (é a sua linguagem de amor) e pra ela é importante.  Ok. Mas justamente recentemente, eu e ela (minha mãe e eu) tivemos umas DR's, umas crises de identidade, umas brigas, uns papos profundos e a NÃO comemoração esse ano foi importante (pelo menos pra mim) pra dar um fôlego e espaço pra traçar os rumos da nossa relação, que está sendo construída.

Construída.

Relação de mãe e filho (a) é uma relação como todas as outras, gente. E foi isso que falei pra minha mãe, quando ela falou algo como "mãe é mãe", exigindo uma determinada postura minha em relação ao Miguel, no sentido de que mãe deveria fazer mais, amar mais,se doar mais, porque amor de mãe é mais forte. Eu falei: "Mãe, eu amo meu pai do mesmo tanto que amo a senhora. O tanto que a senhora se dedicou a mais por mim, o tanto de abdicações, renúncias, e esforço braçal mesmo, não contou pontos extras para o meu amor".

Foi duro, eu sei. É duro. Mas é a verdade.

 Dia das mães do ano passado. Fui tirar umas fotos bonitinhas pra ostentar na rede. Quem vê acha que somos perfeitos, mas...


Eu amo meu pai. Loucamente. Não foi ele que me carregou no ventre, nem que acordou de madrugada pra me amamentar, nem que trocou minhas fraldas, nem nada disso, mas eu o amo. Como amo minha mãe. Loucamente também.

Como se dá a relação de pai e filho? Pai se dá conta de que é pai, quando o filho nasce, praticamente. Ao contrário da mãe, que já sente o bebê nos primeiros meses de gestação. Pai começa em desvantagem. Pai tem que correr atrás do prejuízo (os que tem interesse, claro) porque nos dois primeiros anos a criança depende muito da mãe (inclusive pela amamentação) e ele é um pouco desnecessário, muitas vezes. Pai tem que construir um vinculo, porque a mãe já tem, nem que seja o de pele, o de umbigo. A da mãe tá dada, tá no corpo, tá na cara, mas também tem que ser construída e nem é maior e mais forte por isso.

Sempre fui apaixonada por essa relação de pai e filhos. (Aliás, até hoje, piro num pai solteiroAPAGAR). Infelizmente ainda é minoria homem que é pai protagonista, que reivindica esse papel, que não se acomoda no lugar secundário que a sociedade lhe dá, mas quando rola, é lindo. 

Usei minha própria experiência em relação ao amor pelos meus pais quando me tornei mãe. Nunca quis sozinha (aliás, até casei precipitada e erroneamente em busca desse compartilhar), nunca achei que eu era uma super heroína por ter um útero, nunca vi o pai do meu filho como um ser inferior a mim, essa coisa de mãe, santa, poderosa, suprema.
Não foram poucas as vezes que pedi ajuda ao Heitor. Que pedi socorro. Que reconheci habilidades dele em relação ao Miguel como muito superiores às minhas (trocar fralda, pegar no colo, dar remédio, sei lá). Que briguei por direitos iguais. Que falei: "toma um pouco, dou conta não".
A guarda compartilhada, por ocasião do divórcio, foi sempre decisão/imposição/insistência minha. Fui julgada muitas e muitas vezes por isso. Até hoje sou, aliás.
Sempre achei que Miguel merecia um pai. Que Heitor merecia e devia ser pai. Que eu era só a mãe e que não deveria carregar peso nenhum a mais por conta dessa nomenclatura. E que eu tinha direitos, de ser eu, Marília, e não só a mãe do Miguel. 

Há 5 anos sou mãe. 5 anos dificeis pra porra. Mas 5 anos de muito aprendizado. Ano passado, tive que tirar Miguel da escola e ele foi morar com o pai dele (na verdade, com a avó paterna e eu tenho pegado meio que meio a meio). Eu também  estava num momento da minha vida que... não tava dando conta. (Depois eu vou fazer um post sobre filhos que não moram só com as mães). Procurei ajuda. Fui reconstruir minha relação com o Miguel. Fui trabalhar minhas coisas na terapia. Foi uma barra. Mas aprendi uma grande lição nesse período: pedir ajuda é libertador, uma mãe sem rede de apoio não é ninguém e principalmente: eu preciso acreditar na MINHA maternidade, confiar no que eu acredito e foda-se o que o mundo espera de uma mãe.

Não sou a mãe que a sociedade espera. Nem a que a minha família admira. Nem que é retratada nos comerciais e na publicidade. Mas eu sou só mais uma mãe e não, mães não são todas iguais. 

 Deu tudo errado. Briguei. Miguel brigou. Até fiz um post sobre "maternidade real: a vida com ela é" no Facebook no dia 

Eu esqueço de levar casacos pro Miguel, ou seja, nada de: "ta levando o casaquinho?", eu não sei cozinhar, nem preparo o lanche da escola, eu detesto fazer tarefa escolar e ir em reuniões de pais, eu viajo sem ele e sem culpa cristã, eu não ligo pra ele no final de semana que ele tá com o pai, ou seja, eu não falo com ele todo dia, eu às vezes vou comer uma comida escondido só pra não ter que dividir com ele (quem nunca? risos), eu não penso nele antes de pensar em mim algumas vezes, eu não esqueço dos meus outros e múltiplos lados enquanto mulher e ele não é a minha vida. É parte dela. Uma parte essencial, diria, mas não é meu todo.
Eu não senti um amor incondicional quando ele nasceu (embora eu já tenho dito isso e que já achei bonito acreditar que sim), mas o amo cada dia mais, porque estamos construindo isso. Decisão minha e dele.
E construir relação é dificil gente. Mesmo com um ser de 5 anos. As vezes briga, as vezes chora, as vezes tem culpa, DR (sim, sou aloka da DR e sim tenho DR com o Miguel), tem tempo afastado, tem reconciliação, tem tudo. Pode parecer bizarro, mas trato o Miguel assim desde que ele era um feijão no meu ventre. 
Chorava pacas na gravidez e sofri muito nos primeiros meses de vida dele (os 2 primeiros anos na real, pior fase da minha vida) e todo mundo falava: "você é mãe, agradeça por ter um filho saudável" ou "ele vai achar que você não o ama", colocando meus sentimentos e crises de mulher, de ser humano em stand by porque bem, eu era mãe, não tinha o direito de sofrer. O filho em primeiro lugar. Pois eu conversava com a barriga e dizia: "meu filho, não é bem contigo, mas minha vida tá uma merda. Te amo, mas tá foda". Sempre me mostrei humana pra ele. Peço desculpas ao Miguel. Não falo "porque sim, porque tô mandando". Nunca desenvolvi uma relação (apenas) de poder e de hierarquia. 
Outro dia tava chorando e ele simplesmente foi ao banheiro, pegou um papel higiênico, limpou minhas lágrimas e me deu a mão. Não falou nada. Achei lindo.
Sou mãe, mas sou vulnerável, errante, tenho medos, desejos, frustrações. Mas principalmente: não acho que a maternidade nos salva de nada. Filho não é pra preencher nossa existência, nem cumprir nossas expectativas e foi exatamente isso que gerou a tensão com minha mãe.

Talvez eu não seja a filha que ela desejou que eu fosse. Mas e a nossa mãe, a gente escolhe? Não. Então, também não dá pra escolher o que os filhos vão ser. E o negócio é se amar APESAR DE. Filhos não são a continuação de nossa existência.
Falei pra ela que temos que construir algo que seja mais forte que um laço sanguineo ou um almoço no segundo domingo de maio. 
Quando crianças, até o começo da juventude, uns 20 anos, nossas mães e pais, cuidam da gente. Depois, quando eles estão velhinhos, nós é que cuidamos deles, lá pros 70 anos. Me diz, o que fazer com uma relação que se baseia na dependência,  nessa lacuna de 40,50 anos, em que somos todos adultos e ninguém precisa de ninguém? Almoçar, pedir benção e serem meros estranhos uns aos outros? 

Foi isso que falei que pra minha mãe. Que passou. As fraldas sujas passaram. As olheiras também. Sou grata, mas não a congratulo por isso.
Ser mãe não é uma corrida em que há um pódio no final. Não espere minha reverência. Construa seu espaço na minha vida, para além do amor.
Uma das coisas mais excitantes na maternidade é justamente: "não temos controle de nada". É pular de olhos vendados num abismo. Nunca sabemos onde vai dar, não adianta querer prever.

Mandei meu presente pra comemoração e fui curtir meu dia, não porque era das mães, mas porque era meu domingo livre. Quando cheguei, liguei pro Miguel. Falamos um pouco. Nos despedimos, amanhã vejo ele. 

Minha mãe, verei também. Uma segunda-feira. Um dia comum.

Sabe, não é mal agradecimento, mas não quero que Miguel me chame, me trate como "minha rainha". Não sou. Não quero devoção. Abdico do tratamento especial, porque ele traz um peso pra maternidade, um peso de que quero me livrar, rótulos que luto para desconstruir. Não quero que Miguel me agradeça por eu ser alguém altruísta, alguém que renunciou, que se anulou, que deixou de viver por ele. Isso não é amor de mãe e se amor, não é exclusivo nosso.

Eu quero que o Miguel cresça me agradecendo por tê-lo deixado livre pra ser quem ele quiser, porque eu não depositei nele minhas expectativas de vida. Que cresça com uma vinculação comigo para além das obrigações e reverências, que olhe pra minha vida e veja nela alguém que foi livre, feliz, que amou, que errou, que nunca teve pretensão de ser perfeita, nem que o amou mais do qualquer outra pessoa no mundo. Chega de semi-deuses. Deusas.

Ser mãe não é algo sublime, queridos publicitários. Ser mãe é algo bom, ou ruim. Depende das circunstancias, depende de muitos fatores. Maternidade não é uma experiência igual pra todas as mulheres. E é por isso que defendo a maternidade como escolha e não imposição social (aborto, tema polêmico. falo um outro dia).

Ano passado postei algo no Facebook como: “Doce, terna, fazedora de bolos, santa...com todos esses adjetivos dado às mães, me sinto uma mera chocadeira”. Risos. Mas brincadeiras à parte, não me vejo nesses modelos retratados no Dia das mães, que convenhamos, que data mais sem sentido (como todas as outras comerciais, aliás). Na verdade sou mãe porque transei. 

O resto eu tô batalhando pra fazer, me virar, aprender. Desculpa desapontar o imaginário de vocês, mas mãe é só mãe mesmo. Descreva a sua e eu descrevo a minha.

E pra finalizar, vi minha mãe sendo humana de verdade esses dias atrás, quando ela me disse coisas terríveis e pra machucar mesmo, mágoas de anos, coisas sérias e até me excluiu do Facebook (novos tempos, minha gente. fiquei ofendidíssima com essa, sério). Na hora da raiva, falou “esquece que você tem mãe” e aquilo me deixou embasbacada. Pensei e até revidei: “Nunca vi mãe renegar filho”, mas refletindo depois, vi que putz, minha mãe, a minha, que é calma, que nunca grita, que releva tudo, toda bobinha e coração mole, um referencial de amor incondicional, foi só...humana. 

Achei libertador. Pra nós duas. Me senti em pé de igualdade. Suspiros.

Propus algo a ela depois como “mãe, tamo junto, bora aprofundar as coisas aí, nas nossas diferenças mesmo, nesse tempo que nos resta” e é o que espero pra nós duas. Passamos o dia ontem separadas, mas mais ligadas do que nunca. Nunca é tarde pra se descobrir mãe, pra aprender a ser filha.

Por isso finalmente, meça seus comentários estereotipados, parça. Não reproduza esses clichês que na prática só oprimem e reforçam um ideal inatingível pras mulheres, que exclui pessoas do processo de maternagem, que pesa pros filhos também. 

E você que é mãe, liberte-se também. Não é tudo mérito seu e a culpa não é toda sua.

Outros domingos virão. Comemore com moderação. 


                                                   E viva a vida real! 

segunda-feira, 2 de março de 2015






Abençoado seja o dia 02 de Março. 
Abençoada seja as 23 horas e trinta minutos.
Abençoadas sejam todas as contrações e todas as dores que foram pontes para você vir pra mim.
Abençoada seja a ocitocina. 
Abençoado seja até aquele assaltante que nos assustou, mas antecipou sua chegada ao mundo.

Abençoada seja sua persistência diante da ínfima possibilidade de nascer num ambiente quase infértil. 
Abençoada seja a persistência do seu pai. 
Abençoada sejam todos os elos que gerou você e abençoada sejam até todas as dores que esses elos me causaram, porque mesmo assim passaria por todas elas de novo só pra te ter no meu colo.
Abençoado é todo lugar que você passa. 
Abençoado é cada chão que você pisa com seus ainda pequeninos pés. 
Abençoadas ficam todas as pessoas que você escolhe amar e você ama tantas e tão intensamente. 
Abençoado se torna cada ar que você respira, cada mar que se banha, cada lugar que você deixa seu sorriso. Abençoada é a minha história depois que se cruzou com a sua. 
Abençoada sou eu de ter sido escolhida pra ser sua mãe. 
Abençoados são todos meus medos, minhas inseguranças, minhas falhas porque permitem que a gente cresça juntos, meu filho. Eu nasci junto com você, estamos de mãos dadas, aprendendo a cada dia e construindo nossa relação. Cada dia se torna mais forte, mais doce, mais verdadeira. 
Abençoado seja cada dia em que leio por aí "você já abraçou seu filho, hoje?" e sorrio sozinha porque sei que já. Abençoadas sejam todas as manhãs, todos nossos abraços, todos nosso beijos. 
Abençoado seja seu cheirinho, seu corpinho que carrega todo sentimento do mundo.
Abençoado seja seu futuro, seu entendimento da vida, seu perdão para qualquer erro meu. 
Abençoados foram esses 5 anos e serão todos os próximos. 
Você é uma benção, meu filho amado. Sê feliz, sê inteiro, sê grande. 

Feliz Aniversário. 

Da sua mãe. 

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Meu filho brinca de boneca - e eu gosto!


Miguel é uma criança diferente. 

Seu primeiro brinquedo favorito na vida foi um microfone. Sempre, sempre, gostou de música (na barriga quando eu ouvia, ele acalmava ou “dançava”, mas sempre respondia ao estímulo). Até hoje ele gosta, mas descobriu meu celular e acha mais divertido cantar se filmando.



Gosta de livros também, mas gosta que a gente leia a história pra ele, fazendo vozes e interpretando. 

Guarda todos os diálogos. Repete-os. Agora, que já curte filmes, ele finge o tempo todo ser um dos personagens. Cansei de estar na rua, na fila de um banco, na padaria e o Miguel ficar falando frases (com a voz diferente) de diálogos de filmes e principalmente risadas de bruxas (ele tem um fetiche por bruxas que nem Freud explica, há há há). 

Ele prefere as vilãs. Seu personagem preferido sempre foi o Lobo Mau. Nunca curtiu os três porquinhos. Depois, a segunda e arrebatadora paixão foi a Malévola. Ele ama, idolatra. É a mulher mais linda do mundo pra ele, tanto que...ele quer ser ela.

Me vesti de Malévola em uma festa cujo tema era “Vilões”. Ele pirou. #ComplexoDeEdipoFeelings . 

Talvez tenha sido um dos dias mais felizes da vida dele.  Vive pedindo pra eu me vestir de novo. No dia seguinte, se apoderou das asas e chifres que fiz para a fantasia. 

Ele ama Frozen. Gosta da princesa Anna, mas principalmente da Elsa (que também é meio vilã né?).

Na verdade, ele ama o mundo da fantasia, essa coisa de fadas, bruxas, reis e princesas, um universo diferente da realidade. Meu filho é sonhador, é criativo, é sensível. Na cabecinha dele, a vida é fantasia. Aliás, ele sempre anda com uns panos amarrados (diz que é um rei),com chapéus e adereços que fazem ele se sentir aquilo que deseja.




Eu acho isso lindo. Ele definitivamente tem talento pra arte. Ou pra qualquer coisa que se faça com amor, porque ele também adora cozinhar. 

Os olhinhos dele brilham quando vê um certo canal de receitas no Youtube (é serio, gente).  Admira quem cozinha, se diverte pedindo pra ajudar (ele sempre faz pasteis com meu pai, ficando na parte de rechear e fechar a massa com garfo), adora ver receitas e pede pra eu aprender, descobrir como se faz. 

Daí que ele foi crescendo assim, apurando seus gostos nesse rumo. Miguel não curte carrinhos. Nem bola. Nem esportes. Miguel não curte super  heróis. Enfim, ele não curte brincadeiras e brinquedos predeterminados (pela sociedade) ao seu gênero masculino.

Eu talvez tenha certa parte nisso, porque de fato nunca incentivei (na verdade eu praticamente não compro brinquedos pra ele, apenas livros e filmes). Nunca achei que havia coisas para meninos e para meninas, ao contrário, acho essa limitação horrorosa. E por isso, deixei ele livre pra brincar de ser o que quiser. O pai dele (homem com a cabecinha um pouco - ou muito mais impregnada pelo machismo), já demonstrou descontentamento (usando eufemismo) com isso, acreditando ser meu dever incentivar Miguel a gostar de coisas de “menino”.

Por um certo momento até tentei me observar, pra ver se eu incentivava A ou B, mas não, eu apenas dou espaço para ele ser. Crê-SER. 

Miguel ama, ama, ama Sitio do Pica-Pau amarelo. Gosta da Cuca (olha os vilões aí de novo), mas principalmente a Emília. Assim, tipo encontro de almas. Eu diria que Miguel é a versão masculina e em carne e osso da boneca de pano: espevitado, respondão, inteligentíssimo, carismático e falante pelos cotovelos.

Um dia ele me pediu Emilia, a boneca. E eu dei.



Foi uma confusão. O pai (e um monte de gente) achou um absurdo um menino brincar de boneca. 
Juro pra vocês que foi um choque cultural. Pra mim  aquilo era naturalíssimo. Papo vai, papo vem, deram um fim nessa boneca. Ele ficou arrasado. 

Passou um tempo, ele voltou a insistir, era o sonho da vida dele (palavras do próprio) ter a boneca de novo. Dizia “mamãe, ela tá sentindo a minha falta”. Escreveu  cartas e mais cartas ao Papai Noel pedindo. Não aguentei. Nem minha mãe, que achou outra bendita boneca de pano e deu pra ele.

Ficou feliz igual pinto no lixo. Olhinhos brilhando. Ele ama a boneca. Cuida. Fala que é o pai. Dorme abraçado. Dialoga com ela. Me chama pra participar. É a coisa mais linda desse mundo e eu não consigo entender como tem gente que priva um filho de vivenciar essas coisas. (Essas coisas: brincar do que gosta. Não estou incentivando você dar uma boneca pro seu filho). 



A infância, em meu entendimento, é o momento da fantasia, do lúdico, da brincadeira, de consolidar emoções positivas, de fazer um adulto emocionalmente seguro e capaz de fazer escolhas no futuro. 

Determinar o que a criança deve brincar, querer e pensar é cruel, talvez até uma grande violência.

Não podemos deixar passar que essa predeterminação social nos papeis de gênero na educação de uma criança é também o medo de uma possível homossexualidade – como se a orientação sexual se desse assim e o pior, como se ser homossexual fosse problema que pode e deve ser evitado.

Não, do fundo do meu coração, eu não tenho medo do meu filho ser/tornar-se um homossexual no futuro. (Se eu tivesse, falaria). Nem mesmo pelo medo de um possível sofrimento, vitima de uma sociedade homofóbica, porque aqui, na casa dele, com a mãe dele (e eu só posso falar por mim) ele sempre vai ter segurança, amor e conforto, independente das escolhas que tome na vida.

Esses dias correu na internet a noticia da jovem que se suicidou por medo de revelar aos pais  que era lésbica. Isso mexeu muito comigo. Imagina a morte ser uma possibilidade mais acolhedora do que sua verdade, ser você mesmo, sua família? Não é essa a sociedade que quero, muito menos a família que construo.

É na infância que se iniciam os estragos da vida adulta, o não acolhimento, o não ouvir uma demanda, a falta de dizer não, vai determinar o adulto que teremos, não a brincadeira que ele brinca.

                     
                                 Um filho que brinca de boneca e uma mãe que anda de skate (no dele)


De todos os meus medos, o maior deles em relação ao meu filho é o de que ele seja um adulto inseguro (como eu fui e ainda sou em muitos aspectos), que tenha medo do mundo e principalmente que tenha relações não saudáveis.  O resto é resto.

E sei que tô no caminho certo quando vejo certas coisas. Um dia, fomos ao Picnick  (um evento famoso de Brasília) e ele quis ir com as asas pretas da Malévola. Chamou muita atenção. Todo mundo comentava. Uns diziam “você é um anjo” , mas a maioria achava que era um super herói diferente, sei lá. Dai um menininho de uns 9 anos perguntou “Você tá vestido de quê?” e Miguel respondeu: “Malévola”. O menininho respondeu: “Mas você não pode ser Malévola porque ela é menina”. 

Miguel : “Eu posso ser o que eu quiser”.

(Imagina um emoticon de um salto agulha sambando na cara do moleque)

Pode ter sido só uma respostinha malcriada do meu filho (mais uma, são várias por dia. O menino é afiado), mas meu coração de mãe se encheu dum orgulho tão grande, que achei que ia explodir.

 É isso, eu quero que ele pense que possa ser o que quiser. Porque ele pode mesmo. Eu acredito.

Eu quero que esse mundão esteja preparado para um cara humano, sensível, inteligente e corajoso, que encare tudo como uma grande possibilidade. Que ele nunca perca essa cabecinha sonhadora. Que ele encare o mundo com essa sensibilidade de quem cuida de uma boneca. Jamais vou privar meu filho de sentir. O máximo que estou fazendo é dando a oportunidade de um homem aprender a gostar de ser pai desde cedo e de que , além de ser o que quiser, homem também pode ser terno, cuidador e amoroso.

Um filho melhor pro mundo. Um mundo menos hostil , limitador e preconceituoso pro meu filho.


 

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